No primeiro artigo desta série, estabelecemos que sono e dor se influenciam nos dois sentidos. Mas «influenciar-se» continua abstrato enquanto não se compreende o que acontece, concretamente, no corpo durante uma noite de sono degradado.
É isso que quero detalhar aqui — não para transformar cada pessoa numa especialista em neurofisiologia, mas porque compreender o mecanismo muda muitas vezes a forma como se aborda o problema. Muitos dos meus pacientes dizem-me que, assim que compreendem o «porquê», deixam de se sentir culpados ou de procurar uma explicação puramente mecânica para a sua dor.
O sistema nervoso em estado de alerta
O sono profundo é um dos momentos em que o sistema nervoso autónomo transita para o seu modo de «repouso e digestão» — o oposto do modo de «alerta» ativado perante o stress. Quando o sono é fragmentado ou insuficiente, essa transição não se faz bem, e uma parte do sistema nervoso permanece num estado de vigilância mais elevado do que o necessário, mesmo durante o dia.
Um sistema nervoso que permanece em alerta tende a tratar mais sinais do corpo como potencialmente ameaçadores — incluindo sensações que, num contexto de repouso, seriam percecionadas como neutras ou pouco importantes.
A sensibilização central: quando o cérebro amplifica o sinal
Este fenómeno tem um nome na investigação sobre a dor: a sensibilização central. Não se trata de uma lesão que se agrava, mas de um sistema nervoso central que se torna mais reativo, e que amplifica sinais que, anteriormente, passavam despercebidos.
A falta de sono é um dos fatores que pode favorecer este fenómeno nalgumas pessoas. Não é automático nem universal — mas é uma pista séria para explicar porque é que a mesma dor «física» pode parecer bem mais intensa depois de uma noite agitada.
O papel do cortisol e da inflamação de baixo grau
O sono desempenha também um papel na regulação do cortisol, uma das hormonas do stress. Um sono cronicamente perturbado está associado, em muitas pessoas, a uma desregulação deste ritmo hormonal.
Desempenha também um papel na regulação de certos marcadores inflamatórios de baixo grau — uma inflamação discreta, que não se vê nem se sente diretamente, mas que pode contribuir para manter uma sensibilidade dolorosa ao longo do tempo.
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Nada disto significa que a dor esteja «na cabeça» — pelo contrário, são mecanismos reais e mensuráveis, que explicam porque é que o sono nunca é um simples pormenor na gestão da dor crónica.
No próximo artigo, vamos ver como certos hábitos muito concretos do dia a dia — os ecrãs, o stress acumulado, certos rituais noturnos — alimentam este ciclo, por vezes sem darmos conta. Um primeiro passo simples, entretanto: observe, sem julgamento, em que estado chega ao momento de se deitar — agitado, ainda «em alerta», ou já apaziguado.