O sedentarismo não é falta de desporto — é uma carga mecânica que se acumula

Muitos dos meus pacientes dizem-me o mesmo na primeira consulta: «Não sou propriamente sedentário, corro duas a três vezes por semana.» E, no entanto, ao aprofundar a conversa, descubro dias de oito a dez horas sentados, na mesma posição, com muito pouca variação. É a confusão mais frequente que encontro em consulta — e merece ser esclarecida, porque muda a forma como podemos agir.

Este mês abrimos uma nova série dedicada a um tema que continua mal compreendido: o sedentarismo, não como ausência de atividade física, mas como acumulação de uma carga mecânica estática sobre o corpo.

 

O que o sedentarismo não é

A investigação em saúde pública mostra-o há vários anos: o nível de atividade física e o tempo passado sentado são duas variáveis largamente independentes. Uma pessoa pode ser muito ativa desportivamente e permanecer, no resto do dia, oito a dez horas sentada — no escritório, no carro, diante de um ecrã à noite. O corpo não faz a média entre os dois. Uma hora de desporto intenso não «compensa» nove horas de posição estática, no sentido em que não anula a carga mecânica acumulada durante essas nove horas.

 

O que ele é realmente: uma carga mecânica que se acumula

O que observo em consulta é que o sedentarismo funciona como uma carga — no sentido biomecânico do termo. Estar sentado não é neutro para o corpo: os discos intervertebrais são comprimidos continuamente, certos músculos trabalham em contração isométrica prolongada para manter a postura, a circulação abranda nos membros inferiores. Nada disto é dramático em si, ao fim de alguns minutos. O problema surge quando esta carga se repete, hora após hora, dia após dia, sem interrupção suficiente.

 

Porque é que a duração conta mais do que a intensidade

É um ponto que explico muitas vezes de forma diferente do que os pacientes esperam: não é a posição sentada em si que é o problema, é a sua duração ininterrupta. Mesmo uma postura considerada «correta» — costas direitas, ecrã à altura dos olhos — acaba por criar uma carga repetitiva se mantida sem variação durante horas. O corpo está feito para mudar de posição regularmente, não para manter uma postura ótima em contínuo. Ou seja: a melhor postura é a postura que muda.

Compreender esta distinção já muda a forma de abordar o problema: não se trata apenas de «fazer mais desporto», mas de reduzir a carga mecânica acumulada durante as horas sentadas. No próximo artigo, entramos em detalhe sobre o que acontece concretamente nos seus tecidos após 30 minutos de imobilidade — discos, músculos, circulação.

 

— Fisioterapeuta, fundadora da Reprogrammer Boutique